quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Como os Webinars podem poupar recursos às organizações

Um Webinar é um conceito muito em voga atualmente. A palavra resulta da contração dos termos "Web-based-seminar", que é como quem diz em português: seminário baseado na rede (internet). A designação do termo não podia ser mais explicita. Trata-se de uma ferramenta informática que usa equipamentos multimédia, vídeo, áudio e outros de transmissão de conteúdos digitais para fazer reuniões e seminários. Os participantes ligam-se ao evento, ao webinar em causa, através do seu computador e de um software próprio que pode ser feito também através de páginas online. Nos webinars tende a haver uma moderação, tal como num evento presencial, que vai marcando a ordem de trabalhos, dando a palavra – que neste caso é o ecrã e todos os outputs multimédia que chegam aos recetores. Os oradores têm possibilidade de comunicar por voz, por vídeo e partilhar as apresentações tal como se fosse uma exibição normal de um powerpoint. Os recetores podem conversar entre si, incluindo os oradores e moderadores, através de chat, sem interromper a comunicação principal, tal como solicitar a possibilidade de intervir por áudio ou vídeo.

Reunião das expressões das 35 cabeças - Honore Daumier
Este sistema está vulgarizado em diversos setores de atividade, havendo múltiplos softwares, aplicações e paginas online que permitem, gratuitamente ou pagando por um serviço mais personalizado, fazer este tipo de reuniões e seminários. Trata-se de um meio eficaz de poupar recursos de deslocações e de comunicar rapidamente, em tempo real, bastando um equipamento digital, computador, tablet ou smartphone com ligação à internet para poder utilizar esta ferramenta poderosa. O formato webinar, dependendo do software utilizado, permite guardar registos de uma forma natural, sempre uteis para posterior trabalho e desenvolvimento dos projetos, sem que sejam necessárias elaborar atas profundamente descritivas. Até o papel se pode dispensar.

Podemos sempre dizer que se perde o contacto humano com os Webinars e outros sistemas de interação à distância. É um facto. Mas quando se trata de produzir de modo eficaz e com poucos custos esta é uma opção a ter em conta, cada vez mais. Em muitas organizações e projetos opta-se pelo mix, de comunicação presencial e à distância para aproveitar o melhor dos dois mundos.

Este sistema (ou sistemas) de webinars tem sido muito utilizado no projeto Urbanwins, uma vez que que são múltiplas as reuniões entre participantes que se encontram geograficamente muito distantes. Sendo um projeto que visa a sustentabilidade ambiental, através do estudo do metabolismo urbano associado principalmente aos resíduos urbanos, é notória a intenção de reduzir impactes ambientais, ao mesmo tempo que se garante um meio eficaz de comunicação, que atende às tendências contemporâneas de funcionamento em rede.

Nota: aqui ficam algumas referências de softwares de webinars que podem experimentar:
https://www.capterra.com/webinar-software/
https://zapier.com/blog/best-webinar-software/
https://www.growthmarketingpro.com/best-webinar-software/
https://www.earningguys.com/hosting/best-webinar-software/
https://www.softwarefindr.com/best/webinar-software/
https://www.eztalks.com/webinars/best-webinar-software-comparison.html

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

O Namoro em Portugal durante a Ditadura do Estado Novo

Nos anos 50 Portugal vivia em ditadura de cariz conservador, em que os padrões morais eram assumidos diretamente pelas forças sociais dominantes e pelo próprio Estado, de mão dada com a Igreja Católica.

Para o estudo da melancolia em Portugal - Nikias Skapinakis

Sobre os relacionamentos amorosos caia um profundo peso moralista, que tentava asfixiar demonstrações públicas de carinho, mesmo entre os casais casados e moralmente enquadrados na doutrina católica vigente. Os namoros eram encenações que tendiam à encenação social e a uma certa dose de hipocrisia, própria das normas sociais vigentes. A homossexualidade nem sequer era considerada por ser um tabu.

As raparigas eram vistas como as principais culpadas dos atrevimentos dos rapazes, tal como demonstra do texto de 1958 de Maria Franco na revista Menina & Moça (M&M), uma publicação da Mocidade Portuguesa Feminina. Defendia-se que as raparigas deveriam ser as guardiãs da moral e dos bons costumes. Se demonstrassem esse tipo de comportamento e conduta, segundo os valores da época, poderiam então aceder ao topo do seu papel social: serem as donas de casa, defensoras da harmonia do lar. Alertavam-se as raparigas de que os rapazes gostavam de diversão, mas que só casavam com raparigas moralmente intactas. Ou seja, virgens e sem experiências relacionais. Isto colocava um peso enorme sobre os impulsos amorosos e criava uma poderosa da repressão da sexualidade, uma vez que era o próprio ditador, Oliveira Salazar, quem reservava e defendia publicamente para as mulheres o papel doméstico. Se as jovens mulheres não conseguissem casar seriam párias da sociedade ditatorial do Estado Novo.

Curioso é também o editorial do padre Gustava de Almeida, de 1964, escrito na mesma revista M&M, em que culpa as influências estrangeiras pela degradação da moral das jovens e das mulheres. Criticava o uso de calças e do ato de fumar. Argumentava contra os perigos da época: dos efeitos nefastos da influência de “camaradagens suspeitas”, “influência da maldita literatura francesa”, do “figurino francês” e do “ensino universitário”.

Assim, os encontros entre os jovens português da época eram sujeitos a uma apertada vigilância. O namoro era uma instituição rígida que servia para elevar as virtudes femininas definidas pelo conservadorismo da época. O namoro servia para casar. Acontecia à soleira da porta ou no interior da casa se a relação tivesse notória aprovação. A maior liberdade social dava-se nas classes sociais mais pobres, nos meios rurais e operários. Era nos grupos mais abastados em que o controlo se dava de forma mais apertada, pois estavam em causa questões económicas e de estatuto social. A aprovação parental para o casamento era muito forte nas classes médias e altas, enquanto que nas classes mais pobres podiam assistir-se a taxas de reprovação de 66% para as raparigas e de 73% nos rapazes.

Estas informações devem ser contextualizadas na época. Não esquecer da periferia de Portugal, longe das ideias progressistas do centro e norte da Europa. Os métodos contracetivos não estavam generalizados em Portugal e o peso de uma classe clerical moralmente dominante tinha enorme influência num país que se fechava ao mundo mais desenvolvido. A esmagadora maioria da população portuguesa vivia com escassos recursos e numa situação de quase analfabetismo e infoexclusão. Isto viria a mudar na década de 70, fortemente depois do 25 de abril de 1974, mas, ainda assim, muitas destas heranças ainda haveriam de persistir muitos anos na sociedade portuguesa, abertamente ou sob diversos disfarces.

Referências bibliográficas:
Almeida, Ana Nunes de (coord.) (2011), Os Nossos Dias.  In Mattoso, José (Dir.) História da Vida Privada em Portugal. Lisboa: Temas e Debates.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Planeamento Assistido (Advocative Planning): uma forma de democratizar o planeamento?

Há que começar por alertar que se utiliza o termo Planeamento Assistido como uma tradução do conceito de Advocative Planning, uma vez que a tradução direta literal poderia induzir em erro e apontar para conceitos e termos da área jurídica, tais como planeamento advogado ou advocatório.

Duplo retrato no tempo - Helen Lundeberg

A teoria do planeamento assistido associa-se ao trabalho de Paul Davidoff (1930-1984), que se diferenciou e distinguiu pela defesa da necessidade de uma visão mais política do exercício do planeamento. Tratava-se de uma abordagem contrastante e quase antagónica face à visão apolítica e burocrática do planeamento. Era uma tentativa de democratizar o exercício do planeamento, afastando-o das visões racionalistas sistémicas em que o planeamento era executado exclusivamente por especialistas, que, em teoria, podiam prever e modelar o funcionamento eficiente de cidades, regiões e países, recorrendo a ferramentas de planeamento.
 
Paul Davidoff queria evitar os casos recorrentes em que os técnicos e especialistas pelo planeamento se desligavam das realidades locais e necessidades das comunidades. Queria que os cidadãos, utilizadores, moradores e quem fosse influenciado pelos planos pudessem participar também nos processos de planeamento. Pretendia que se diminuísse o potencial de conflito entre planeadores e cidadãos, evitando casos de arrogância técnica em que as propostas dos técnicos eram vistas como puramente racionais e a dos cidadãos meros exercícios de irracionalidade. Davidoff pretendiam aproximar a prática técnica do exercício da cidadania, evitar a arrogância e incompreensão de ambas as partes, transformando o planeamento num exercício de justiça social. Considerava que os planeadores recorriam também às suas crenças e que não estavam isentos de influências ideológicas, que os factos e os valores não podiam ser separados. Davidoff defendia que a neutralidade de valores não existia, nem os planeadores eram isentos nos processos de planeamento. Recomendava que cada interveniente assumisse os seus valores, aqueles que levavam a que escolhessem determinados caminhos e opções. Para Davidoff os planeadores deveriam trabalhar em instituições, organizações e com todos aqueles cujos valores coincidiam. Assim, os planeadores teriam de se envolver nos processos políticos como assistentes dos interesses em que acreditavam, quer fossem assumidos por governos, grupos, organizações ou indivíduos interessados ou mobilizados por determinadas causas de interesse coletivo e público. Os planeadores teriam um importante papel cívico e de participação nas dinâmicas democráticas.

Nos processos de planeamento assistido pressupõem-se que existam múltiplas propostas produzidas e defendidas por diferentes grupos, assistidos por planeadores. As propostas podem ser contraditórias entre si, incluindo planos opostos às propostas do poder público. O resultado do processo de planeamento assistido seria uma competição de ideias, uma espécie de dialética de planeamento. Estas mudanças permitiriam: informar melhor o público sobre as várias alternativas; forçar os decisores políticos a competirem com outros grupos, ganhando com isso apoios políticos com o desenvolvimento do processo, e; forçar os críticos a desenvolverem e apresentarem propostas alternativas. Apesar de não se ter apresentado um sistema de avaliação e de tomada de decisão nesta dialética de planeamento, pode-se partir do principio que os planos realizados por esta via resultariam de múltiplas etapas em que as propostas com mais apoios e que melhor cumpriam os objetivos traçados seriam as escolhidas, embora subsistam dúvidas de como seria feito esse processo na prática, em situações dúbias e antagónicas.
 
No Reino Unido implementou-se um sistema semelhante ao planeamento assistido de inspiração norte-americana, em que grupos e cidadãos poderiam recorrer a planeadores públicos, em períodos fora das suas funções públicas para esclarecer dúvidas e ajudar na elaboração de propostas de planeamento alternativas. Este sistema ficou conhecido por Planning Aid, planeamento de ajuda.

Em resumo, do planeamento assistido realça-se a importância da diversidade e dos múltiplos valores e pontos de vista nas dinâmicas de planeamento, de um relativismo muito próprio, algo que podemos facilmente relacionar com a influências do pensamento pós-modernista.

Referências bibliográficas:
Allmendinger, Philip (2017). Planning Theory. Third edition. London: Palgrave

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Porque andam sempre os norte-americanos no tribunal?

Para quem não seja norte-americano pode parecer excessivo o peso que o sistema judicial tem na vida dos norte-americanos. Para nós europeus parece realmente excessivo. Fica a sensação que se vai a tribunal por tudo e por nada. Quando importamos a cultura audiovisual norte-americana lá estão as infindáveis séries e filmes de advogados, tribunais e processos judiciais. Mas haverá com certeza uma razão para isso.

Calúnia de Apeles - Botticelli

Uma possível explicação prende-se com a história dos próprios EUA. Sendo um país que nasceu no século XVIII, em que alguns dos seus “pais fundadores” eram proeminentes pensadores do iluminismo, não se estranha que tenham tentado evitar a arbitrariedade do poder absoluto, criando um sistema judicial forte e igualitário para todos os cidadãos livres. Por outro lado, tratava-se de um país construído por emigrantes, de muitos recém-chegados provenientes de muitas origens, de línguas, hábitos e culturas diferentes. A estrutura social estava em convulsão e construção. Era seguramente necessário ter uma base legal forte, evidente e que todos pudessem de imediato interiorizar e recorrer para manter alguma paz social.

Os conflitos, quando não resolvidos de forma mais violenta, passavam automaticamente para a esfera legal, numa visão muito pragmática que caracteriza a cultura norte americana. Sendo as estruturas sociais europeias sólidas, mesmo que as nacionalidades sejam mais recentes, existem um legado histórico de organização social que hoje pode estar a favorecer uma maior tolerância que evita conflitos. Esse legado, na forma da organização das sociedades, com todos os seus mecanismos, parece contribuir para gerar diferenças grandes nas mentalidades europeias e norte-americanas. O peso do individualismo é também maior nos EUA apesar de uma maior predisposição para o associativismo, registada por Tocqueville no século XIX como sendo aquilo que permitia o funcionamento da democracia norte-americana.

Apesar dos múltiplos conflitos, que historicamente assolaram a europa parece, hoje em dia os europeus conseguem, aparentemente, recorrer mais à cooperação e negociação, conseguindo-se chegar a modos alternativos menos confrontacionais de resolver conflitos. Numa sociedade assim o sistema judicial não tem de ser solicitado com tanta frequência, reduzindo a sua importância cultural na própria sociedade. Mas o mundo globaliza-se e as culturas homogeneízam-se e é necessário resolver conflitos que não param de surgir. Será que iremos tender para um crescimento do uso dos tribunais ou poderemos evitar isso através da cooperação e tolerância?

domingo, 7 de janeiro de 2018

Será que pagamos o real preço do transporte marítimo?

Quando começamos a estudar um pouco sobre transportes uma daquelas verdades quase absolutas, que todos sabem, é que o transporte de mercadorias por via marítima é o modo mais eficiente. Apesar de ser uma generalização, que pode ser invalidada por imensas variáveis particulares, não é muito difícil perceber que um barco, a operar em condições ótimas, concebido para transporte de cargas consegue transportar uma grande quantidade de peso e volume de uma só vez sem que sejam necessárias pesadas infraestruturas de apoio ao percurso e consideráveis recursos humanos, ao contrário do que acontece com o transporte terrestre. Com o aumento da tonelagem dos barcos, com a automatização dos processos, com a tecnologia dos contentores estandardizados e sistemas de planeamento, gestão dos fluxos de cargas de forma global compreende-se o potencial para uma elevada eficiência deste meio de transporte.


No entanto, nem sempre as condições ótimas ocorrem, por diversos motivos. No documentário "Freightened: the real price of shipping" de Denis Delestrac explora-se o lado negro, segundo os autores, do transporte marítimo, tentando desmontar a ideia da absoluta eficiência do transporte marítimo de carga. O documentário alerta também para não estarmos a suportar os reais custos e impactes dessa atividade. O documentário foi exibido em Portugal pelo Canal Odisseia com o nome de "Freightened: o preço real do transporte marítimo".

Cerca de 90% dos produtos que consumimos são transportados, em algum momento, por transporte marítimo. Os autores dos documentário alertam para elevada probabilidade de apenas 5% dessas cargas estarem a ser controladas, tornando o transporte por contentores marítimo perfeito para tráficos ilícitos de toda a natureza. Alertam para a deficiência da regulamentação do setor, pois, em alto mar, as empresas detentoras dos barcos têm de cumprir a legislação do país cuja bandeira ostentam, o país em que o armador registou o barco. Existe assim uma intensa competição internacional de determinados países, quase sempre países pouco desenvolvidos ou offshores, para oferecerem as melhores condições aos armadores, que é o mesmo que dizer: redução das cargas fiscais, da legislação laboral, ambiental e etc. Os efeitos são pouquíssimos direitos laborais para as tripulações e uma grande folga para gerar descontrolados impactes ambientais associados ao funcionamento dos barcos. Há que lembrar que os motores dos grandes barcos consomem qualquer tipo de combustível fóssil, optando as empresas pelos mais baratos que são respetivamente os mais poluentes. Para os autores dificilmente haverão alterações, pois são os países com maior número de barcos registados quem mais peso tem internacionalmente nas organizações de regulamentação do setor, o que significa que o controle será naturalmente pouco apertado e exigente.


O documentário levanta muitas outras questões. Embora a realidade possa não ser exatamente nele se relata, não deixa de ser um assunto de interesse global e que merece ser cuidadosamente analisado. Enquanto consumidores deste mundo global, onde o nosso individualismo e identidade se manifesta fortemente através do consumo, sendo que temos acesso a cada vez mais produtos que viajam milhares de quilómetros, temos o dever ético de ficar com dúvidas se o que pagamos pelo transporte marítimo acautela todos os reais efeitos ambientais e custos económicos. Se não estivermos a pagar alguém um dia terá essa fatura por liquidar.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Vantagens e Limitações do uso da análise SWOT: caso do projeto UrbanWins

A utilização da matriz SWOT (FOFA em português) está muito generalizada em vários processos de análise, avaliação e planeamento de projetos. Mas nem sempre, apesar da utilização massiva, se tem consciência das limitações desta metodologia. Há que evitar a sua aplicação cega, sem consciência das implicações e sem espírito crítico.

A matriz SWOT identifica para um determinado objeto - em sentido lato, podendo ser uma empresa, projeto, ideias, etc. -, numa grelha, as Forças, Fraquezas, Ameaças e Oportunidades. Consideram-se as relações do contexto interno com as Forças e Fraquezas e do ambiente externo com as Ameaças e Oportunidades. Isto gera uma ou mais matrizes que, habitualmente, são preenchidas de forma resumida, sistemática e simplificada, tendendo-se para a criação de tópicos ou entradas diretas nos campos da matriz (habitualmente linhas). Atribui-se o desenvolvimento desta metodologia a Albert Humphrey, académico da Universidade de Stanford, durante as décadas de 1960 e 1970 [1]. 

Fonte da Imagem: http://jorgenca.blogspot.pt/2015/12/analise-swot-aplicada-conceito-e-um.html

Apesar desta metodologia, tal como foi referido, identificar os pontos fortes, fracos, ameaças e oportunidades, conseguir fazer alguma relação com o ambiente interno e externo, os resultados e aplicabilidade tem várias limitações. O resultado e produto do preenchimento de uma análise SWOT tende a ser pouco aprofundado, não sendo suficiente para analisar devidamente um projeto, ideia ou outro objeto em causa. Por exemplo, a metodologia SWOT: não define prioridades diretamente, raramente identifica alternativas e um sistema de avaliação comparativo que leve à tomada de decisão [2]. No entanto não deixa de ser muito importante usar esta metodologia em conjunto com outras metodologias. 

Fonte da imagem: https://blog.luz.vc/como-fazer/como-usar-analise-swot-para-lancar-um-produto-ou-servico/

No projeto UrbanWINS, durante a 3.ª Ágora presencial em Leiria utilizou-se a metodologia SWOT para dar continuidade ao processo colaborativo. Fruto das duas anteriores sessões presenciais surgiram várias ações que haveriam de ser aprofundadas na terceira sessão. Para tal afixaram-se as fichas das ações, uma por cada ação, e sobre elas uma matriz SWOT para que os participantes pudessem avaliar de forma expedita as ações, colocando "post-its" com as várias entradas nos quatro campos da matriz. Tendo em conta a natureza deste projeto, sendo que os métodos teriam de ser de aplicação imediata, dificilmente se poderiam usar metodologias mais aprofundadas para avaliar as ações. Apesar da análise SWOT não permitir um grande grau de detalhe, quando estão vários objetos de avaliação lado a lado, cada um com a sua SWOT, consegue-se melhorar todo o processo de análise comparativa. Há que não esquecer de que este processo colaborativo é direcionado para pessoas que apenas trabalham pontualmente nos assuntos e nos conteúdos em causa. Posteriormente, foram também votadas as ações a serem trabalhadas mais profundamente em grupos, que deram inicio ao trabalho nas várias mesas disponíveis, concretizando a vertente mais colaborativa do processo.

Imagem panorâmica da 3.ª ágora local do projeto UrbanWins em Leiria

A análise SWOT já não é novidade e, talvez por isso, está para ficar. Dificilmente se desenvolve um projeto sem a sua implementação. As limitações são evidentes, mas quando se está perante um processo colaborativo, em que se pretende facilidade de interação e fomento imediato da participação, faz todo o sentido utilizar uma metodologia que os participantes já conhecem de outros contextos.

Referências citadas:
[1] "History of the SWOT analysis" (2010). The Bright Hub Project Management. Disponível em:  http://www.brighthubpm.com/methods-strategies/99629-history-of-the-swot-analysis/
[2] "Benefits and limitations of SWOT analysis" (2016). Queensland Government . Disponível em: https://www.business.qld.gov.au/starting-business/planning/market-customer-research/swot-analysis/benefits-limitations

Complementos bibliográficos:
Lindon, D.; Lendrevie J.; Lévy J.; Dionísio P.; Rodrigues J. (2015). Mercator XXI Teoria e prática do Marketing, 16.ª edição. Lisboa: Dom Quixote.


#UrbanWins #abuscapelasabedoria

domingo, 10 de dezembro de 2017

Lutas de classes e marxismo: domínio dos meios de produção das classes criativas na era capitalismo cognitivo-cultural e das Edge Cities

No pós-2.ª Guerra Mundial, com a ascensão dos Estados Providência, que atenuaram conflitos sociais nas sociedades industriais, principalmente nos países europeus, e contribuíram para o surgimento de uma classe média, a teoria da luta de classes associada marxista ficou fragilizada. Os efeitos dos totalitarismos que surgiram, supostamente, inspirados pelo marxismo transposto em ordem política geraram ainda mais afastamento dos intelectuais, levando ao surgimento dos neomarxismo, da escola de Franckfurt, da Teoria Critica e de outras inspirações que procuraram mais liberdade e lidar de forma alternativa com os princípios originais da visão marxista.

Attacked - Gilbert & George

Mas parece que o luta de classes está a ressurgir com o nascimento de uma nova classe social que tende para a apropriação dos novos meios de produção. Esta frase está carregada de conceitos marxistas, do materialismo histórico, pelo que o marxismo volta a estar presente nos diálogos do século XXI. Se pensávamos que este discurso seria anacrónico nos dias que correm afinal podemos ficar surpreendidos. O mix social pode ser uma realidade em muitos locais, mesmo coexistindo com uma gritante diferença social entre os muito ricos e os muito pobres, formando classes sociais muito antagónicas e distantes. Pensando no capitalismo económico, ainda muito associado aos processos produtivos materiais e agora de serviços, existe uma esmagadora maioria das pessoas que não têm nem assumem traços marcantes de classe. Serão a classe média de largo lastro, serão pessoas que vivem do seu trabalho ou de pequenos negócios e produções sem cargas sociais autoassumidas ou excessivamente condicionantes e que vão conseguindo viver, consumir e realizar atividades além da mera sobrevivência, naquilo que se chama pós-industrialismo.

No entanto este fenómeno de atomização de classes parece estar a ser invertido em determinados locais, especialmente nos centros tecnológicos a que alguns autores, como Joel Garreau, chama de “edge cities” ou cidades de fronteira. Um desses casos paradigmáticos é Silicon Valley. Estes polos urbanos tecnológicos, nódulos territorialmente materializados, segundo o conceito de sociedades em rede de Manuel Castells, estão a contribuir para a ascensão de uma nova classe social. Esse novo grupo desenvolve-se em polos de concentração de um novo tipo de capital económico, resultante do capitalismo cognitivo-cultural – conceito desenvolvido por Gilles Deluze, Felix Guattari, Michel Foucault, entre outros. Este novo tipo de capitalismo resulta de uma mudança económica, em que as antigas dinâmicas produtivas materialistas passam a ser dominadas pela capacidade criativa de criar conhecimento que se converte em múltiplas formas de capital. Este sistema forma novas formas de meritocracias que, num mundo global, permitem, supostamente, a qualquer pessoa, detentora desta cultura e conhecimentos, ascender a essa nova classe social. Todas as restantes classes tendem a ser expluídas, como meros prestadores de serviços e bens menos valorizados segundo este tipo de capitalismo, ou simplesmente como consumidores. Neste novo arranjo económico-social as universidades mudam de papel, passando a ser vistas como máquinas de talentos que incentivam a competitividade dos seus alunos e os conduzem a sistema capitalista cognitivo-cultural.

Também Richard Florida contribuiu para desenvolver estes conceitos, acrescentando o conceito de classe criativa, que se associa às edge cities ou a determinadas zonas inseridas em polos urbanos já existentes promotoras da criatividade. Sendo essa classe criativa parte importante do novo capitalismo, não é de estranhar que as cidades queriam assumir-se como “criativas”, direcionando politicas para a promoção desse tipo particular de classe social e dos seus ambientes, alavancando assim o capitalismo cognitivo-cultural e todos os seus efeitos.

Resumindo. Podemos estar perante uma nova luta de classes. As teorias marxistas podem voltar a ganhar atualidade pois os meios de produção estão novamente na ordem do dia, segundo este novo tipo de capitalismo que gera grandes acumulações e concentrações de riqueza. Tudo isto gera enorme incerteza, numa altura em que se assume publicamente que a esmagadora maioria dos empregos poderão desaparecer com a automatização, o que implica mudanças sociais revolucionárias. Resta saber se essas mudanças produtivas e económicas irão gerar conflitos sociais e novas lutas de classe violentas ou se a transição será suave.

Referências bibliográficas:
  • Allmendinger, Philip (2017). Planning Theory (3rd edition).
  • Castells, Manuel (1996). The Information Age: Economy, Society and Culture:Vol. I. The Rise of the Network Society.
  • Deluze, Gilles & Guattari, Félix (1972). Anti-Oedipus: Capitalism and Schizophrenia.
  • Florida, Richard (2017). The New Urban Crisis: How Our Cities Are Increasing Inequality, Deepening Segregation, and Failing the Middle Class—and What We Can Do About It.
  • Florida, Richard (2002). The Rise of the Creative Class. And How It's Transforming Work, Leisure and Everyday Life.
  • Foucault, Michel (1978). L’Histoire de la sexualité: Volume I - La Volunté de Savoir.
  • Garreau, Joel (1991). Edge City: Life on the New Frontier. 
#abuscapelasabedoria

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Séries históricas: as línguas e comunicação em "Maximiliano: poder e paixão"

Por mais apelativos que possam ser as séries, filmes e romances históricos correm-se inúmeros riscos nessas criações. Podem ser modos de despertar e consciencializar públicos mais generalistas para os conhecimentos históricos, mas, quase na mesma medida, podem ser fontes de transmissão de desinformação quando são excessivamente criativas e vão para além dos conhecimentos históricos para se tornarem vendáveis e mais "espetaculares". 


A propósito destas questões, que são habituais quando se reflete sobre epistemologia da história, está neste momento em exibição, na RTP2, uma série histórica que apresenta algumas características particulares. Trata-se de "Maximiliano: poder e paixão", no original "Maximilian: Das Spiel von Macht und Liebe", da autoria de Martin Ambrosch e realização de Andreas Prochaska. A série retrata a ligação entre a casa da Borgonha e os Habsburgos, que viria a reordenar a ordem política e cultural da europa a partir do século XV. De notar que os Habsburgos eram a família reinante da atual Ausrtria, enquanto que a Borgonha pertence hoje à atual França, tendo sido um ducado que atuava como reino importante e rico da Idade Média. De notar que o primeiro rei de Portugal era descendente paterno do duque da Borgonha, isto mais de quatro séculos antes, demonstrando a importância dessa região onde se desenvolveu a importante e poderosa ordem monástica de Cluny, que viria a contribuir posteriormente para a nossa conhecida Ordem de Cister. A Borgonha incorporava cidades como Dijon, Besançon, Metz, Luxemburgo e chegou a controlar a flandres e os países baixos. 

Na série salientam-se pelo menos dois fatores curiosos. Apesar do orçamento não ser, com certeza, enorme que permitisse reproduções exatas dos contextos há cuidado histórico, tendo em conta as limitações deste tipo de projetos. Algo que salta à vista prende-se com a presença das múltiplas línguas em simultâneo. Em muitos diálogos os intervenientes falam a sua própria língua, independentemente do interlocutor. Por exemplo, é comum numa conversa uma das personagens falar em francês enquanto a outra responde em alemão. Isto levanta algumas questões interessantes. Na idade média o latim seria a língua erudita e escrita internacionalmente pelos intelectuais. Provavelmente, na prática, o latim pouco seria utilizado fora destes círculos. Parece muito provável que talvez esta fosse mesmo a prática, de cada um falar na sua língua local, sendo que é do conhecimento comum que é mais fácil compreender uma língua que fala-la. Fica a hipótese. Por outro lado, as diversas conotações que se sentem nos discursos de Maria de Borgonha que aludem a um nacionalismo da Borgonha parecem ser anacrónicas, especialmente porque o seu reino era multiétnico, multilinguístico e fruto de um sistema de conquistas e domínios feudais. Ainda assim tenta-se explicar a complexidade do sistema feudal medieval europeu, numa altura em que não tinha aina sido inventado o Estado-Nação. 

Referências bibliográficas:
Ducado da Borgonha, in Wikipédia, disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ducado_da_Borgonha
Maximiliano: poder e paixão, in RTP, disponível em: http://media.rtp.pt/extra/estreias/maximiliano-poder-amor/
Reino da Borgonha, in Wikipédia, disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Reino_da_Borgonha
Solar, Davis & Villalba, Javier (Dir.) (2007). História da Humanidade: Idade Média. Lisboa: Circulo de Leitores.

domingo, 19 de novembro de 2017

Participação e colaboração não são sinónimos nos processos políticos e cívicos

É muito comum assistir-se ao uso das palavras "participativo" e "colaborativo" como sinónimos, especialmente em contextos políticos e cívicos. Apesar dos processos políticos e cívicos poderem ser as duas coisas em simultâneo não devem ser utilizados como sinónimos. Quando tal ocorre podemos desconfiar de que se trata apenas de uma recurso estilístico para embelezar um discurso ou um determinado conteúdo escrito. 

Os banhistas - Fernand Léger

O termo participativo é um adjetivo que descreve algo ou alguém que "participa ativamente nalguma atividade ou tarefa, fomenta ou propicia a participação, que se exprime ou comunica facilmente, numa relação com o termo comunicativo". O termo colaborativo é também um adjetivo, servindo para descrever algo ou alguém que "colabora ou serve para colaborar". Sendo que colaborar é um verbo que indica "trabalhar em comum com outrem, agir com outrem para a obtenção de determinado resultado, ter participação em obra coletiva". 

Depois destas breves descrições, com base no dicionário online Priberan, percebemos que o ato participativo tem uma conotação individualista enquanto que um ato colaborativo resulta num trabalho coletivo, forçosamente de mais de uma pessoa. Já o ato participativo pode implicar uma certa passividade, podendo significar um "estar presente passivo", como mera assistência, sem mais interações. Por outro lado, a colaboração exige trabalho de interação, originando um produto que será forçosamente diferente do mero somatório das participações individuais que habitualmente são produzidos nos processos participativos*. Apesar da Infopédia referir que o adjetivo participativo implica "participar ativamente em algo" essa participação ativa pode ser simplesmente o ato passivo de ouvir ou estar presente, nada impedindo que ação seja o mero movimento até se colocar nessa posição passiva. Ou seja, os processo colaborativos são sempre participativos, embora os processos participativos possam não ser colaborativos.

No que toca aos processo cívicos e políticos são tanto mais ricos quando se conseguir ir além da mera participação para atingir a colaboração. O Priberam refere que o substantivo política significa "a ciência de governo das nações e a arte de regular as relações de um Estado com outros Estados". Já a Infopédia diz que política é também "a orientação administrativa de um governo, os princípios diretores da ação de governo ou um conjunto dos princípios e dos objetivos que servem de guia a tomadas de decisão e que fornecem a base da planificação de atividades em determinado domínio". Pegando nestes vários significados percebemos que a política diz, quase sempre, respeito a Estados. Quando se diz Estados podemos simplesmente estar a dizer comunidades e coletivos humanos, sociedades no fundo. 

Portanto, podem existir muitos processos políticos e cívicos, quase sempre necessitados de participação, mas nem sempre de colaboração, sendo os casos de processos colaborativos bem mais raros nas práticas políticas e cívicas*. Os processos de colaboração têm ganho popularidade enquanto instrumentos criativos de estudo em laboratórios sociais nas academias e nas empresas mais inovadoras, mas na vertente política, especialmente nas práticas democráticas, parece não haver explicação para a sua não generalização na atividade corrente. Fica a dúvida se essas práticas serão assim tão democráticas como nos querem fazer crer.

Participation is not the same as collaboration. Brief Summary in English.
Participative is not a synonymous of collaborative. Sometimes in political and civic process the two terms are used as the same thing. But to participate don’t have a group dimension, leading to process that only sum the participation of every individual. In a collaborative process the result depends form a group participation, where the result is more and different form just the sum of every individual participation. So, a collaborative process requires participation and a participation process don’t need a collaborative method to work.

* Exemplo comum do orçamento participativo onde cada indivíduo faz uma proposta sem mais interações que o voto dos demais cidadãos.
**Um exemplo de processo colaborativo é o caso do projeto UrbanWINS, em que a problemática em causa - os resíduos urbanos - é abordada do ponto de vista académico mas também incentivando a participação cívica em processo colaborativos. 

Referências:
Infopédia. Disponível em: https://www.infopedia.pt/
Priberan. Disponível em: https://www.priberam.pt/dlpo/

#UrbanWINS
#Abuscapelasabedoria

domingo, 12 de novembro de 2017

O modelo DPSIR nos processos de participação cívica cooperatica: o caso do projeto UrbanWINS

Abstract of key subjects to UrbanWINS DPSIR model. 

The DPSIR model refers to the acronym "Driver-Pressure-State-Impact-Response”. The DPSIR is based on indicators that result from a variety of multidisciplinary methods and models important for understanding a particular phenomena. This model was developed by the European Environment Agency in 1999. This perspective suggests that economic and social development, which are the driving forces (D), exert pressure (P) on the environment and as a result state (S) undergoes environmental changes. These changes have impacts (I) on ecosystems, human health and other factors. Due to these impacts, society responds (R) to the driving forces, or directly to the pressures, state or impacts through preventive, adaptive or curative solutions. We can say that the process enables the possibility to help and intervene in multiple ways in all stages of the processes of changes and generation of environmental impacts. The successful application of the DPSIR model depends on the ability to quantify each D, P, S, I and R element, as well as to establish the various relationships between the them. The task of measuring each of the elements of DPSIR, finding adequate information to quantify each of them, as well as formulating the most appropriate indicators, has been a continuous work since the creation of the methodology. It is intended that the DPSIR can solve the information gaps of the political agents in order to produce better policies (Ferrão & Fernández, 2013). In addition to the improvement of the urban metabolism, as a system, which can be intervened in each one of its components, this procedement aims to help in the process of political decision making, introducing a collaborative option as part of a greater process.

Um resumo da 2.ª Ágora local em Leiria e o modelo DPSIR

Decorreu no passado dia 7 de novembro de 2017 a 2.ª Ágora presencial do projeto UrbanWINS em Leiria. Depois da primeira Ágora, em que os participantes, através de uma metodologia colaborativa de trabalho de grupo e de votação, identificaram algumas prioridades sobre os problemas e desafios dos resíduos urbanos em Leiria, seria o momento de passar à fase seguinte. O objetivo da segunda ágora era aprofundar as prioridades das ações propostas, desenvolvendo-as, através do modelo DPSIR, para que se pudessem começar a desenhar propostas de ações. Essas primeiras propostas resultavam originalmente do processo colaborativo aplicado ao UrbanWINS, que, no fundo, pretendia contribuir para resolver algumas das problemáticas da produção de resíduos e assim melhorar o metabolismo urbano. Mas o processo colaborativo necessitou de ser enriquecido para além dos contributos que gerou, de forma a poderem desenrolar-se as fases seguintes. Assim, a equipa de gestão do projeto conjugou os contributos da 1.ª ágora com recomendações técnicas e com planos que o município de Leiria havia desenvolvido para a temática dos resíduos urbanos. O resultado seria um produto que nascia dos contributos dos cidadãos e stakeholders mas que ganhava mais estruturação e conjugação técnica com as política existentes.


O modelo DPSIR refere-se a às siglas “Driver-Pressure-State-Impact-Response”, que é como quem diz em português: “Forças Motrizes – Pressões – Estado – Impactes – Respostas”. O DPSIR baseia-se em indicadores que resultam de uma variedade de métodos multidisciplinares e modelos importantes para compreender um determinado fenómeno. Este modelo foi desenvolvido pela Agência Ambiental Europeia em 1999. Esta perspetiva sugere que o desenvolvimento económico e social, que são as forças motrizes (D), exercem pressão (P) no ambiente e, como resultado, o estado (S) sofre alterações ambientais. Estas alterações têm impactes (I) nos ecossistemas, na saúde humana e noutros fatores. Devido a estes impactes, a sociedade responde (R) às forças motrizes, ou diretamente às pressões, estado ou impactes através soluções preventivas, adaptativas ou curativas. No fundo dá-se uma possibilidade de ajudar e intervir de múltiplas formas em todas as etapas dos processos de mudança, alterações e geração de impactes ambientais (Ferrão & Fernández, 2013).


O sucesso na aplicação do modelo DPSIR depende da capacidade de conseguir quantificar cada elemento D, P, S, I e R, tal como estabelecer as várias relações entre ambas as componentes. A tarefa de medir cada um dos elementos da DPSIR, encontrando informação adequadas para quantificar cada um deles, tal como formular os indicadores mais adequados, tem sido um trabalho contínuo desde a criação da metodologia. Pretende-se assim que a DPSIR possa colmatar falhas de informação dos agentes políticos, de modo a poderem produzir melhores políticas (Ferrão & Fernández, 2013). Para além da melhoria do metabolismo urbano, enquanto sistema, passível de sofrer intervenção em cada uma das suas componentes, pretende ajudar nos processos de tomada de decisão política, sendo que essa tomada de decisão será tanto melhor quanto mais participada for pelos stakeholders e cidadãos em geral.


Esta 2.ª ágora foi muito mais participada que a primeira, sinal de que ainda é um processo novo, mas com espaço para crescimento, quando assumido e usando de meios de divulgação e incentivo à participação. Não foi de estranhar a primeira questão colocada por um dos participantes. A dúvida alertava para a necessidade de que a identificação das medidas e ações para melhorar a performance e sustentabilidade da cidade através da redução ou melhor tratamento dado aos resíduos, exigia que os participantes conhecessem o diagnóstico do panorama dos resíduos em Leiria. De imediato o facilitador do evento, um cidadão local independente conhecedor da metodologia, explicou que essa ausência de informação era premeditada e necessária para a agilização dos processo que tinha como objetivo: perceber qual a perceção dos cidadãos e não propriamente de um conselho restrito de especialistas sobre o tema dos resíduos. Se voltarmos aos princípios do modelo DPSIR facilmente percebemos que esta metodologia se relaciona com a necessidade de avaliar e perceber se os resultados das políticas estão a ser percebidos ou não pelos cidadãos, se a pressão que as forças motrizes exercem no estado do ambiente são notadas pelas pessoas e se têm sugestões ou a perceção do sucesso das medidas e politicas ambientais em vigor, neste caso sobre o tema dos resíduos.


O evento decorreu sem mais questões e de forma dinâmica. Depois destas explicações os participantes puderam circular pela sala. Munidos de "post-its" puderam dirigir-se aos vários quadros onde se identificavam as prioridades para as políticas de gestão de resíduos urbanos. Os quadros estavam organizados segundo os princípios do método DPSIR: Prioridade; Problemas; Objetivos; Forças motrizes; Pressões; Impactes para a sociedade; Ações propostas. Neles era possível colocar post-its com mais contributos dos stakeholders, que no fundo eram os participantes nessa 2.ª ágora. Na fase seguinte o trabalho foi direcionado para as várias mesas de trabalho onde os participantes se podiam sentar, consoante as ações que pretendiam trabalhar. Em casa mesa existiam duas ações para trabalhar e aprofundar. O grupo teria de preencher cada uma folha por ação em que constavam os campos: Descrição da ação; Fluxos afetados (energia, água, resíduos, uso do solo, poluição do ar, etc.); Tipo de resíduos; Posição na cadeia do material/reciclado; Responsabilidade pela implementação; Stakeholders envolvidos na implementação; Stakeholders afetados pela implementação; Informação adicional necessária. 

Na prática a implementação destas sessões parecem ser muito simples, na perspetiva dos cidadãos e stakeholders participantes. Podem parecer também algo ingénuas, quando se cria a ilusão que vão resolver todos os problemas e encontrar a derradeira solução para os problemas em causa. Mas acaba por ser um trabalho estruturado e que, obtendo alguns resultados úteis para as questões de melhoria objetiva que se pretendem implementar, acima de tudo tem o grande potencial e valor de conseguir fomentar processos colaborativos e participativos da comunidade, evitando outros formatos mais rígidos e que não desenvolvem competências cívicas ativas nos cidadãos. Só isso tem um valor incalculável.

#UrbanWINS
#Leiria

Referências bibliográficas:
Ferrão, Paulo & Fernández, John (2013). Sustainable Urban Metabolism. London, Cambridge: The Mit Press.
UrbanWINS. [em linha]. Disponível em: https://www.urbanwins.eu/

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa