segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Vantagens e Limitações do uso da análise SWOT: caso do projeto UrbanWins

A utilização da matriz SWOT (FOFA em português) está muito generalizada em vários processos de análise, avaliação e planeamento de projetos. Mas nem sempre, apesar da utilização massiva, se tem consciência das limitações desta metodologia. Há que evitar a sua aplicação cega, sem consciência das implicações e sem espírito crítico.

A matriz SWOT identifica para um determinado objeto - em sentido lato, podendo ser uma empresa, projeto, ideias, etc. -, numa grelha, as Forças, Fraquezas, Ameaças e Oportunidades. Consideram-se as relações do contexto interno com as Forças e Fraquezas e do ambiente externo com as Ameaças e Oportunidades. Isto gera uma ou mais matrizes que, habitualmente, são preenchidas de forma resumida, sistemática e simplificada, tendendo-se para a criação de tópicos ou entradas diretas nos campos da matriz (habitualmente linhas). Atribui-se o desenvolvimento desta metodologia a Albert Humphrey, académico da Universidade de Stanford, durante as décadas de 1960 e 1970 [1]. 

Fonte da Imagem: http://jorgenca.blogspot.pt/2015/12/analise-swot-aplicada-conceito-e-um.html

Apesar desta metodologia, tal como foi referido, identificar os pontos fortes, fracos, ameaças e oportunidades, conseguir fazer alguma relação com o ambiente interno e externo, os resultados e aplicabilidade tem várias limitações. O resultado e produto do preenchimento de uma análise SWOT tende a ser pouco aprofundado, não sendo suficiente para analisar devidamente um projeto, ideia ou outro objeto em causa. Por exemplo, a metodologia SWOT: não define prioridades diretamente, raramente identifica alternativas e um sistema de avaliação comparativo que leve à tomada de decisão [2]. No entanto não deixa de ser muito importante usar esta metodologia em conjunto com outras metodologias. 

Fonte da imagem: https://blog.luz.vc/como-fazer/como-usar-analise-swot-para-lancar-um-produto-ou-servico/

No projeto UrbanWINS, durante a 3.ª Ágora presencial em Leiria utilizou-se a metodologia SWOT para dar continuidade ao processo colaborativo. Fruto das duas anteriores sessões presenciais surgiram várias ações que haveriam de ser aprofundadas na terceira sessão. Para tal afixaram-se as fichas das ações, uma por cada ação, e sobre elas uma matriz SWOT para que os participantes pudessem avaliar de forma expedita as ações, colocando "post-its" com as várias entradas nos quatro campos da matriz. Tendo em conta a natureza deste projeto, sendo que os métodos teriam de ser de aplicação imediata, dificilmente se poderiam usar metodologias mais aprofundadas para avaliar as ações. Apesar da análise SWOT não permitir um grande grau de detalhe, quando estão vários objetos de avaliação lado a lado, cada um com a sua SWOT, consegue-se melhorar todo o processo de análise comparativa. Há que não esquecer de que este processo colaborativo é direcionado para pessoas que apenas trabalham pontualmente nos assuntos e nos conteúdos em causa. Posteriormente, foram também votadas as ações a serem trabalhadas mais profundamente em grupos, que deram inicio ao trabalho nas várias mesas disponíveis, concretizando a vertente mais colaborativa do processo.

Imagem panorâmica da 3.ª ágora local do projeto UrbanWins em Leiria

A análise SWOT já não é novidade e, talvez por isso, está para ficar. Dificilmente se desenvolve um projeto sem a sua implementação. As limitações são evidentes, mas quando se está perante um processo colaborativo, em que se pretende facilidade de interação e fomento imediato da participação, faz todo o sentido utilizar uma metodologia que os participantes já conhecem de outros contextos.

Referências citadas:
[1] "History of the SWOT analysis" (2010). The Bright Hub Project Management. Disponível em:  http://www.brighthubpm.com/methods-strategies/99629-history-of-the-swot-analysis/
[2] "Benefits and limitations of SWOT analysis" (2016). Queensland Government . Disponível em: https://www.business.qld.gov.au/starting-business/planning/market-customer-research/swot-analysis/benefits-limitations

Complementos bibliográficos:
Lindon, D.; Lendrevie J.; Lévy J.; Dionísio P.; Rodrigues J. (2015). Mercator XXI Teoria e prática do Marketing, 16.ª edição. Lisboa: Dom Quixote.


#UrbanWins #abuscapelasabedoria

domingo, 10 de dezembro de 2017

Lutas de classes e marxismo: domínio dos meios de produção das classes criativas na era capitalismo cognitivo-cultural e das Edge Cities

No pós-2.ª Guerra Mundial, com a ascensão dos Estados Providência, que atenuaram conflitos sociais nas sociedades industriais, principalmente nos países europeus, e contribuíram para o surgimento de uma classe média, a teoria da luta de classes associada marxista ficou fragilizada. Os efeitos dos totalitarismos que surgiram, supostamente, inspirados pelo marxismo transposto em ordem política geraram ainda mais afastamento dos intelectuais, levando ao surgimento dos neomarxismo, da escola de Franckfurt, da Teoria Critica e de outras inspirações que procuraram mais liberdade e lidar de forma alternativa com os princípios originais da visão marxista.

Attacked - Gilbert & George

Mas parece que o luta de classes está a ressurgir com o nascimento de uma nova classe social que tende para a apropriação dos novos meios de produção. Esta frase está carregada de conceitos marxistas, do materialismo histórico, pelo que o marxismo volta a estar presente nos diálogos do século XXI. Se pensávamos que este discurso seria anacrónico nos dias que correm afinal podemos ficar surpreendidos. O mix social pode ser uma realidade em muitos locais, mesmo coexistindo com uma gritante diferença social entre os muito ricos e os muito pobres, formando classes sociais muito antagónicas e distantes. Pensando no capitalismo económico, ainda muito associado aos processos produtivos materiais e agora de serviços, existe uma esmagadora maioria das pessoas que não têm nem assumem traços marcantes de classe. Serão a classe média de largo lastro, serão pessoas que vivem do seu trabalho ou de pequenos negócios e produções sem cargas sociais autoassumidas ou excessivamente condicionantes e que vão conseguindo viver, consumir e realizar atividades além da mera sobrevivência, naquilo que se chama pós-industrialismo.

No entanto este fenómeno de atomização de classes parece estar a ser invertido em determinados locais, especialmente nos centros tecnológicos a que alguns autores, como Joel Garreau, chama de “edge cities” ou cidades de fronteira. Um desses casos paradigmáticos é Silicon Valley. Estes polos urbanos tecnológicos, nódulos territorialmente materializados, segundo o conceito de sociedades em rede de Manuel Castells, estão a contribuir para a ascensão de uma nova classe social. Esse novo grupo desenvolve-se em polos de concentração de um novo tipo de capital económico, resultante do capitalismo cognitivo-cultural – conceito desenvolvido por Gilles Deluze, Felix Guattari, Michel Foucault, entre outros. Este novo tipo de capitalismo resulta de uma mudança económica, em que as antigas dinâmicas produtivas materialistas passam a ser dominadas pela capacidade criativa de criar conhecimento que se converte em múltiplas formas de capital. Este sistema forma novas formas de meritocracias que, num mundo global, permitem, supostamente, a qualquer pessoa, detentora desta cultura e conhecimentos, ascender a essa nova classe social. Todas as restantes classes tendem a ser expluídas, como meros prestadores de serviços e bens menos valorizados segundo este tipo de capitalismo, ou simplesmente como consumidores. Neste novo arranjo económico-social as universidades mudam de papel, passando a ser vistas como máquinas de talentos que incentivam a competitividade dos seus alunos e os conduzem a sistema capitalista cognitivo-cultural.

Também Richard Florida contribuiu para desenvolver estes conceitos, acrescentando o conceito de classe criativa, que se associa às edge cities ou a determinadas zonas inseridas em polos urbanos já existentes promotoras da criatividade. Sendo essa classe criativa parte importante do novo capitalismo, não é de estranhar que as cidades queriam assumir-se como “criativas”, direcionando politicas para a promoção desse tipo particular de classe social e dos seus ambientes, alavancando assim o capitalismo cognitivo-cultural e todos os seus efeitos.

Resumindo. Podemos estar perante uma nova luta de classes. As teorias marxistas podem voltar a ganhar atualidade pois os meios de produção estão novamente na ordem do dia, segundo este novo tipo de capitalismo que gera grandes acumulações e concentrações de riqueza. Tudo isto gera enorme incerteza, numa altura em que se assume publicamente que a esmagadora maioria dos empregos poderão desaparecer com a automatização, o que implica mudanças sociais revolucionárias. Resta saber se essas mudanças produtivas e económicas irão gerar conflitos sociais e novas lutas de classe violentas ou se a transição será suave.

Referências bibliográficas:
  • Allmendinger, Philip (2017). Planning Theory (3rd edition).
  • Castells, Manuel (1996). The Information Age: Economy, Society and Culture:Vol. I. The Rise of the Network Society.
  • Deluze, Gilles & Guattari, Félix (1972). Anti-Oedipus: Capitalism and Schizophrenia.
  • Florida, Richard (2017). The New Urban Crisis: How Our Cities Are Increasing Inequality, Deepening Segregation, and Failing the Middle Class—and What We Can Do About It.
  • Florida, Richard (2002). The Rise of the Creative Class. And How It's Transforming Work, Leisure and Everyday Life.
  • Foucault, Michel (1978). L’Histoire de la sexualité: Volume I - La Volunté de Savoir.
  • Garreau, Joel (1991). Edge City: Life on the New Frontier. 
#abuscapelasabedoria

Artigos relacionados

Related Posts with Thumbnails


A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa